Hoje espera-nos uma etapa um pouco longa, por isso há que levantar bem cedo para nos fazer ao caminho. Preparar tudo bem rápido, e começar a jornada porque ainda para mais o calor ameaça ser bastante em mais um dia de Setembro. O garoto começava a dar os primeiros sinais de fadiga, enquanto a mãe se revelava uma autêntica heroína, joelho sempre bastante inchado mas ela sempre seguia com ele ligado de uma forma firme e tenaz de modo a não deixar o filho preocupado, mas a nós bem nos dizia que lhe estava a custar muito. Depois passamos pela famosa igreja da Virxem Peregrina, que é uma das referências do Caminho Português, para logo de seguida atravessarmos a parte antiga da cidade até milenar ponte de O Burgo. Saindo da cidade entramos num longo carreiro de pelo meio de campos, onde a paisagem bucólica nos faz fazer uma introspecção acerca dos novos propósitos para fazer o caminho. É aqui que conheço uma pessoa que me marcou bastante nesta jornada. Encontro em sentido contrário ao nosso, de Caldas de Reis para Pontevedra um senhor de aspecto franzino, com a pelo queimada pelo sol, músculos dilatados pela violência dos km´s, com uma pequena mochila e uma garrafa de agua. Era um peregrino português, residente no Entroncamento e que tinha feito a jornada épica de ir a pé do Entroncamento até Lion (França), de lá fez o Caminho Francês e chegado a Santiago de Compostela, estava a fazer o Caminho Português em direcção ao Porto. Este senhor estava a 90 dias a caminhar, sendo que quando me ouviu a falar português começou a chorar compulsivamente de alegria porque dizia que à muitos dias que não ouvia falar português. Trocamos breves palavras para depois seguimos a nossa jornada, sendo que aquela cara, aquele corpo franzino e a tenacidade vincada naquele rosto nunca mais me saiu da memoria ao longo do resto da jornada. Esta parte do caminho apesar de todo o aspecto bucólico e aparentemente sem dificuldade, mas que no entanto estamos numa zona com muita água, de onde se não tivermos um bocadinho de cuidado facilmente molhamos os pés o que é um caos, pois ficamos com eles limados e aparecem as famosas bolhas. E foi aqui precisamente que o garoto os molhou e cai no erro de não nos dizer nada andando vários km´s com eles assim, provocando-lhe várias bolhas, eu estranhei ele começar a ficar com a passada mais lenta, mas sempre pensei que seria da fadiga. Chegados a aldeia de San Mauro fizemos uma pausa junto a uma fonte belíssima que ali se encontra, para abastecermos os cantis de água e temperar as forças, foi ai que vimos o estado lastimoso em que o garoto tinha os pés. Ligamos-lhe os pés, meias secas e começa a caminhada, com um senão, aqui o Daniel, agora em vez de uma mochila carrega duas a minha e a do garoto. Eram "só" uns 15 kg que levei as costas durante os últimos 7/8 km´s, uma violência e um sacrifício em que só vi as consequências mais tarde. O sacrifício foi que ao fim de alguns minutos aqueles 15 kg pareciam ser o dobro, as minhas costas era tudo dor, os ombros estavam a ficar negros e para ajudar à festa, o caminho atravessa várias vezes a famosa autoestrada N550 que liga Portugal á Galiza, uma tortura para os pés, andar sobre asfalto com aquele peso em cima dos ombros, mas com muita persistência, oração e companheirismo lá se foi suportando. Estamos a entrada da cidade, sendo que seguimos directamente para a famosa ponte do Umia, um dos locais de eleição desta cidade termal. Paramos numa esplanada mesmo ao lado da ponte e lanchamos /jantamos ali mesmo sendo que a pior noticia do dia estava para vir, o albergue da cidade estava em obras, não podíamos ficar lá hospedados. Os outros três peregrinos foram para uma residencial, eu por uma questão de poupança de euros fui ao pavilhão gimnodesportivo e pedi para ai ficar a dormir naquela noite, pedido imediatamente aceite, com total disponibilidade para usar os balneários para tomar um banho e um colchão para me deitar. Cai a noite e eu no final dos treinos de andebol do clube local fico sozinho naquele pavilhão enorme, onde qualquer barulho por mais minúsculo que fosse, pareciam tiros. Comecei a ficar com medo e sem conseguir descansar, o meu corpo estava agora rígido com os os nervos de estar ali sozinho. Decido arrumar as minhas coisas e sair dali o mais rápido que pudesse e procurar um banco de jardim no centro da cidade para esticar o corpo, pois não estava às escuras e sempre podia ver o que estava à minha volta. Quando ia em direcção ao jardim encontro um mosteiro de freiras, é então que decido me enrolar no saco cama e deitar-me ali a porta do convento com a sensação de que ali estava seguro. Não será preciso dizer que praticamente não consegui cerrar olhos, apenas descansou um pouco o corpo da violência do dia, e se havia dia em que precisava de um bom descanso era este mas mais uma prova de superação. Ora por volta das 5:30/6 h da manhã começa o movimento no convento, com algumas das irmãs a entrarem neste, sendo que uma delas de assustou indo chamar as outras irmãs dizendo que estava um sem abrigo ali a porta deitado, foi então que eu disse que era um peregrino, contando-lhe o episódio do pavilhão, então elas disseram para eu entrar dando-me bolachas e chá para me dar forças para nova jornada que ai vinha, ás irmãs o meu obrigado.
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| Fonte das Burgas (imagem retirada de : http://aventura- caminhos-santiago.iblogger.org) |
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Caminho a entrada de Caldas de Reis (imagem retirada de : http://aventura- caminhos-santiago.iblogger.org)
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