Este terceiro dia para mim foi o mais difícil a todos os níveis, mas principalmente a nível mental e físico pelos motivos que a seguir vou explicar. Como sempre a partida de Ourense foi bem cedo, ainda de noite, para fugir o máximo ao calor insuportável que se fazia sentir esta semana. Depois de tomado o pequeno almoço, um episódio surreal, um dos amigos do Canário saca de um charro enorme, começa a fuma-lo e depois vira-se para nós e diz: "conho quiere caminar? a continuación, vamos, veo que tiene las piernas para ir conmigoo!!" Se no almoço no dia anterior já tinha me divertido a grande, a manhã começou da melhor maneira!!Saímos um grupo grande, eu, o Canário o grupo que já vinha com ele antes de ele se perder e ter desviado para Verin, um casal e os seus dois filhos. Ao todo éramos uns 10/11 peregrinos, que saímos do albergue mas que rapidamente nos separamos. A saída de Ourense é feita pela ponte antiga que liga a as duas margens do rio(não vou dizer se é do estilo romano ou românico para não errar, visto que a atravessei de noite....) e logo em seguida por uma subida extremamente íngreme e violenta com uma extensão praticamente de 1km!! Logo aqui na subida o grupo fragmentou-se ficando para trás eu e o casal com os filhos. Disse ao Canário para ele seguir o ritmo dele porque eu tinha tempo para chegar a Santiago e ele tinha voo marcado para 5 feira dessa semana...foi ai que me despedi da pessoa que mais me marcou nesta peregrinação. A partir daqui começa uma segunda etapa da minha peregrinação, onde a superação, a coragem, o desanimo, o choro, a oração fizeram parte da rotina diária. Durante cerca de 10km caminhei ao juntamente com o casal e os filhos, eram do sul de Espanha, o casal caminhava bem mas os filhos...Mas quando faltavam uns 8/10km o casal e os filhos disseram-me que não aguentavam aquele ritmo para eu continuar que eles iam seguir o ritmo deles. Para mim foi mais um golpe duro porque queria chegar a Cea, o meu pé doía-me cada vez mais e agora encontrava-me a caminhar sozinho. Confesso que estes últimos km foram um suplicio porque já mal conseguia colocar o pé no chão, tal eram as dores, mas cerrei os dentes e ai fui eu em direcção a Cea, sendo que o que me valeu foi a ausência de asfalto, os caminhos mesmo ate Cea são por entre florestas de e campos de cultivo, o que mesmo numa hora de calor terrível sempre tinha umas sombras para aliviar. Confesso que quando vi a placa a indicar o albergue as lágrimas brotaram da minha cara instantaneamente porque estava a ser muito doloroso continuar a caminhar. Cea é uma pequena vila com uma parte muito rústica,com uma praça central lindíssima, na qual tem uma torre com uma fonte de agua maravilhosa e extremamente fresca. O albergue é uma antiga casa recuperada com um grande terraço e todo de pedra. Chegado ao albergue e foi tomar um merecido banho e ir a procura de um restaurante para comer, subi em direcção ao centro quando não foi o meu espanto ao encontrar barraquinhas a vender polvos grelhados oriundos das Rias Baixas, perguntei o porque e responderam que era típico nos dias de feira. Depois de um bom repasto composto por polvo grelhado com uma boa salada e uma bela garrafa de vinho dirigi-me a uma farmácia para comprar qualquer coisa para colocar no pé, porque em Ourense não me souberam dizer o que tinha, aqui a médica da farmácia disse que aquilo era um derrame interno, deu-me uma pomada e disse que o melhor era colocar o pé em água fria o máximo de tempo que possível. Dirigi-me em seguida para a praça central e foi ai tive umas duas horas com o meu pé na fonte e as dores para aquele dia passaram. Aproveitei o resto da tarde para tirar umas fotografias e em seguida para descansar. Veio a noite para um belo descanso que amanha é mais um dia de jornada!!
P.s: o casal e os filhos chegaram cerca de 1,30h depois de mim, sendo que os filhos vinham num estado lastimoso. ´
P.s 2: aqui em Cea encontrei um dos peregrinos que tinha seguido no grupo do Canário desde Ourense mas que decidiu ficar aqui no albergue esta noite o que se tornou mais agradável porque éramos um grupo novamente.
" A Vontade de nos superarmos diariamente aumenta quando somos capazes de passar a barreira psicológica da dor física!!!"
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