Cá estou eu mais uma vez para descrever mais uma etapa desta minha jornada. Esta foi a etapa mais dura e mais penosa a vários aspectos que mais a frente vão verificar, não tanto a nível físico mas a nível mental exigiu muito de mim.
Mais uma vez a saída foi bastante cedo. São 5:30h da manhã, levanto-me tentando não fazer barulho para não acordar nenhum dos peregrinos que estavam no dormitório e saio de fininho, para trás ficam os dois amigos ciclistas e outro que tinha chegado ao albergue ao final da tarde do dia anterior, que tinha 10kg em cada lado da bicicleta. Começo a caminhar ainda de noite e cedo de apercebo que ia ser uma jornada complicada. Primeiro porque é a primeira etapa em que saio sozinho, de noite, sem lanterna... já estão a ver o filme. Em segundo lugar pelo tempo, estava uma noite/madrugada extremamente abafada o que significava duas coisas, ou estava-se a formar alguma trovoada ou ia ser mais um dia extremamente quente o que para caminhar era terrível, mas cá estava eu para o que desse e viesse, não havia volta a dar. Para começo perfeito de jornada ao fim de uns dois quilómetros perdi-me, andei uns 300m enganada no meio de um campo e depois uns 5minutos a procura da seta ou marco que indicassem o caminho. Arrepiado caminho, lá continuo com o dia a começar a clarear no horizonte e péssima noticia...céu extremamente carregado já com barulho de trovoes, acelerei o passo, visto estar a entrada de uma floresta(linda, cheia de carvalhos, choupos, e outras árvores) óptima para tirar fotografias mas que ficou adiada para uma próxima peregrinação, visto que o que eu queria era encontrar um abrigo, porque a chuva estava a começar a cair e pior que isso(se isso já não fosse suficientemente mau....) os raios que eram cada vez mais fortes e intensos. Passei por uma ponte romana lindíssima, nem parei, passo de corrida já porque estava a uns 200/300m de uma aldeia. Chego finalmente a aldeia que era trespassada por uma estrada, não se via vivalma, olhei em redor e vi a igreja, a minha primeira reacção foi seguir para lá, chovia torrencialmente nesta altura, raios a cair e para a minha sorte a igreja estava... fechada, melhor que isso é o facto de o cemitério se encontrar numa dos lados desta, o que com uma trovoada, escuro porque o céu ficou tão carregado que parecia noite outra vez, este não era o cenário mais convidativo. Saio dali e ainda pensei seguir caminho, mas como era continuar pelo meio da floresta decidi procurar um abrigo. Encontro uma garagem entro ali, tiro o saco cama e coloco-o a minha volta para não arrefecer e rezar e esperar para que a trovoada passe depressa. Olho para o telemóvel e reparo que são...7:30h da manhã, nunca na minha vida tinha estado sob de uma trovoada a esta hora, uma coisa surreal. Cerca de meia hora mais tarde já com a chuva praticamente fora do meu caminho, começo a caminhar outra vez. O cheiro a terra húmida e abafada típica de quando ocorrem as trovoadas no verão eram agora bem notórias. Visto o que me aconteceu, vejo-me decidido a ir até Bandeira onde existe um albergue. O que restava do caminho até Bandeira confesso que não me custou nada a fazer, sempre por trilhos, arvoredo e pequenos povoados. Chegado a Bandeira, vejo o meu segundo contratempo, o albergue é no parque de campismo da vila e situa-se a dois km dali, a moral foi um pouco abaixo porque percorri os dois km´s e chegado lá o albergue encontrava-se fechado, o recepcionista tinha ido almoçar. Ali estava eu no a entrada do albergue sobre um calor parvo, com a vila la no cimo, fiquei ali sentado a pensar no que ia fazer, era muito cedo ainda( cerca das 13h), decido ir ate Outeiro o próximo albergue visto que o dia ainda era muito grande, começo o caminho de retorno em direcção a Outeiro, chegado ai procuro um um café para e tomo um aquarios para refrescar e restabelecer os níveis de sais minerais. A saída de Bandeira cruzo-me com um grupo de peregrinos que iam para Outeiro também, um grande composto maioritariamente por mulheres, travei uma pequena conversa e segui o meu ritmo porque ainda me restava uma longa jornada. Quero salientar que parte do caminho entre Bandeira e Ponte Ulla custo bastante porque é feito grande parte por asfalto, o que deixa os nossos pés numa lastima e como eu já estava meio coxo de um deles...Ao chegar a P.Ulla deparo-me com uma paisagem bastante bonita com uma ponte ferroviária muito antiga no horizonte, ai faço uma pequena pausa para abastecer de agua numa belíssima fonte onde estavam parados dois peregrinos, um alemão e outro italiano, seguimos juntos uns 300m mas eu sigo porque eles iam se ficar por Ponte Ulla e eu ainda tinha que ir até Outeiro. Ao chegar a P.Ulla procurei um restaurante barato para comer qualquer coisa porque eram 4h da tarde e acho que estava mais que na hora de fazer uma refeição decente. Encontrei um restaurante mesmo a saída da ponte, um lugar muito acolhedor e onde comi e bebi maravilhosamente. Depois do repasto, procurar um supermercado para comprar fruta, leite, pão e uns iogurtes porque em Outeiro onde estava o albergue não havia nada. A saída de P.Ulla encontro três peregrinos que também estavam em Laxe, eram duas raparigas jovens e um senhor de meia idade, uma delas com os pés numa lastima, cheios de bolhas por não ter um calçado apropriado, até metia dó só de olhar, ela mal conseguia andar, com a parte de cima das sapatilhas cortadas e cheias de algodão. A nós restou dar-lhe animo para que ela aguaenta-sse porque o albergue estava a menos de 10km, o senhor esse era um peregrino experiente já, porque já tinha feito vários Caminhos. Seguimos jornada juntos mas aqui o caminho tinha uma subida terrível, são 3, 4km sempre a subir, primeiro por uma calçada, depois por estrada e em seguida por terra batida antes de chegar a Outeiro. Mas se uma trovoada já tinha sido mau, imaginem duas no mesmo dia! É verdade, a meio da subida para Outeiro, começam os trovões outra vez e a cair umas pingas. Virei-me para os três peregrinos e disse-lhe que ia acelerar o passo porque já tinha apanhado uma trovoada e não queria apanhar uma segunda, eles disseram para eu seguir o meu ritmo que nos encontraria-mos no albergue. Alargo a passada, já no meio de um eucaliptal, a cerca de 1500/700m do albergue quando S.Pedro decidiu que eu tinha mesmo que apanhar um valente banho e medo por causa dos raios do trovão, porque eles caiam ali no eucaliptal que não era brinquedo. A mim não me restou alternativa que pegar no saco que tinha com as compras e fazer dele uma capa para a minha mochila para que esta se molha-se o menos possível, e rezar para que nenhum raio cai-sse perto de mim porque andar a caminhar no meio de uma floresta aquando de uma trovoada não é o melhor que possamos fazer, mas não tinha opção. A chegada ao albergue é sob uma chuva torrencial mas feliz por finalmente poder ir descansar.
Chegando aqui, tratei de me instalar, comer qualquer coisa, por a roupa a secar e tirar fotografias na entrada do albergue pois a chuva estava agora a parar. O Albergue é um edifício muito bonito e funcional, com um jardim lindíssimo. Espero que os meus três amigos peregrinos de acomodem e depois fomos juntos visitar a capela de S.Tiaguinho e beber na sua fonte. A capela de S.Tiaguinho é uma pequena capela do estilo românico, erguida em nome de Santiago, e cuja a particularidade ser que ao lado tem uma fonte que diz ser obrigatório todos os peregrinos que passem por aqui beber ali. Depois de fotos tiradas e de uns dedos de conversa é chegada a altura de preparar tudo para a jornada do dia seguinte que era o grande dia. Resta-nos comer qualquer coisa e deitarmo-nos na cama para um descanso mais que merecido.
P.S: esta jornada para mim teve a máxima de que "o que não nos deita abaixo torna-mos mais fortes", pois foram vários os momentos de adversidade que tive nesta jornada, mas que com muito esforço, força e fé que fizeram com que no final do dia tudo parece-sse fácil e que Santiago estava já ali a 18km de distancia!!
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