Ora eis que chegou o tão ansiado dia. Levanto-me bem cedo como tem sido hábito nesta jornada, cerca das 5.30h da manhã, ponho a mochila pronta e preparo-me para iniciar a jornada. Sou o primeiro do albergue a sair, saio de fininho sem fazer barulho para não acordar ninguém. Ainda é noite e os primeiros 2km são feitos ainda sobre a luz da luz. Estava uma manha óptima para caminhar, fresca sem estar fria, sendo que o caminho, nesta fase inicial, era essencialmente por caminhos de terra batida o que para o meu pé eram excelentes noticias. Começa a clarear o dia, é maravilhoso ouvir o cantar dos pássaros pela manha, já numa azafama louca a procurarem comida e nos seus jogos matrimoniais, visto que estavam em plena época de acasalamento. O odor da terra exalava agora devido a chuva caída no dia anterior, o cheiro das flores e o verde que aparecia agora pela manhã dava ainda mais força para a caminhada. Depois de uma primeira fase feita a bom ritmo, entrava agora numa fase mais dura, não que fosse fácil o caminho, mas como era grande parte por asfalto nesta fase o meu pé já estava a sentir dificuldades. Nas primeiras horas caminhei sozinho sem avistar qualquer peregrino, mas isso mudou quando faltavam uns 10km para Santiago de Compostela, ai começo a ver peregrinos, alguns parados numa pequena aldeia praticamente as portas de Santiago, a comer uma belas tapas e a beber canãs de cerveja. Juro que a minha vontade numa primeira fase era essa mas depois mentalizei-me que mais uns km e estava a peregrinação acabada e ai teria tempo para comer tapas e beber cañas de cerveja. A aproximação a Santiago por este Caminho Sanabres é caracterizada sobretudo por subidas muito íngremes e longas descidas, o que para os nossos joelhos é terrível. Eram cerca das 9:30h da manhã avisto a placa a dizer "Santiago de Compostela", ai meus amigos a moral disparou, mesmo sabendo que a Catedral ainda estava a uns 5km mas isso já não importava, ai foi cerrar os dentes e mesmo já em algumas dificuldades por causa do pé segui as setas indicativas do caminho, o que aqui nesta entrada da cidade não é das coisas mais fáceis porque andavam obras em curso.
Primeiro momento alto acontece, chego a um ponto onde avisto as torres da Catedral e ai as lágrimas começaram a correr sem parar e o coração a apertar num misto de emoção e felicidade, paro por uns momentos para tirar umas fotos e é quando chega junto a mim o peregrino que estava a fazer o caminho de bicicleta que eu tinha encontrado em Laxe e que trazia uns 10km em cada lado da bicicleta, também ele era agora lágrimas pelo dever cumprido. A partir daqui foi caminhar sempre com as torres da Catedral em fundo, depois a meio da ultima descida antes de entrar mesmo na cidade, paro numa tasca estudantil para tomar qualquer coisa, e para saborear o momento, quando entrei fui cumprimentado por toda a gente lá dentro o que fez com que a ideia que eu tinha dos espanhóis em relação aos peregrinos se confirma-se. Resta-me o ultimo km já bem dentro da parte antiga da cidade de Santiago de Compostela, passando por edifícios lindos como uma das universidades, um convento, etc. Depois de subir, subir por entre estes edifícios, eis que chego a Porta do Peregrino, que nos da caminho para a praça do Obradoido onde se encontra a Catedral de Santiago, e aqui eram centenas de peregrinos a fluir de todo o lado, de toda a Europa, de todas as idades. Sigo para a praça do Obradoiro e ai a primeira coisa que eu fiz foi me ajoelhar para agradecer e celebrar mais esta jornada, seguido de um grito triunfal porque a emoção é mais que muita neste momento, onde a voz de embarga e fica tremula perante a alegria que toma conta de nós depois de uma jornada destas concluída e perante a nossa pequenez junto a imponência da Catedral do Santo Apóstolo.
Recomposto e depois de 10m de euforia, sigo para a oficina do peregrino para colocar o carimbo final na minha credencial/passaporte de peregrino e para ai me darem a Compostela. A Compostela é um certificado todo escrito em latim onde esta firmado que és um peregrino de Santiago, de salientar que estas compostelanas apenas são passadas a quem percorreu 100km ou mais a pé, de bicicleta ou a cavalo. Chegado a oficina a fila era gigantesca, mas não me restava alternativa, mas acaba por passar depressa esta espera porque sempre vamos travando conhecimento com alguns peregrinos e meia hora depois ali estava eu prestes a adquirir a minha segunda Compostelana. Depois de cumprido este ritual, foi deixar a minha mochila aqui na oficina guardada e dirigir-me para a Catedral porque ia haver uma Missa do Peregrino, normalmente é só aos domingos, mas visto que estamos num Ano Santo Compostelano(Ano Santo Compostelano é sempre que o dia de Santiago calha num domingo). Deparo-me novamente com uma longa fila para entrar na Catedral visto que agora todos os peregrinos são revistados a entrada por causa do terrorismo. Chego mesmo no inicio da missa, com o privilégio de esta ser presidida pelo bispo de Santiago, a Catedral estava lotada (como sempre), na sua esmagadora maioria peregrinos, onde a emoção toma conta de nós pois aqui agora em recolhimento, em oração, agradecemos ao Santo Apóstolo e a Deus porque apesar dos sacrifícios, das dores, dos momentos de solidão, tudo ter corrido bem, e onde fazemos as nossas orações pelos motivos que nos levaram a fazer esta peregrinação/jornada. O momento alto das Missas do Peregrino é quando o botafumeiro, que é de um tamanho gigante, esta preso a uma corda e é puxado por um grupo de acólitos/monges (não tenho a certeza) que o começam a balançar de um lado para o outro até esta praticamente bater em cada uma das extremidades do tecto da Catedral, acompanhados por musica do orgão, é um momento apoteótico, onde os flaxes das cameras não param de disparar, que termina com uma grande salva de palmas.
Finda a missa resta-me cumprir o meu último ritual que "todos" os peregrinos devem cumprir, que é a visita ao túmulo do Santo Apóstolo, novamente uma fila enorme, mas que espero com tranquilidade e prazer. O túmulo do Santo Apóstolo encontra-se debaixo do altar mor da Catedral, para isso temos que passar por trás do altar e depois descer para junto do túmulo, ai temos apenas uns minutos para oração e depois temos que sair porque estão sempre pessoas à espera para fazerem a visita.
Mais uma peregrinação concluída! Sozinho, cheio de dores, com um pé num estado lastimoso, mas principalmente motivado por ter superado mais uma missão de aventura e de ver alguns dos meus limites superados!Com o sentimento de dever cumprido, com a minha espiritualidade renovada e com o significado de sacrifício, companheirismo, amizade muito mais fortalecidos!!
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